quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

FERNANDO PESSOA (1888-1935)



Objetivo: Fazer um panorama da obra de Fernando Pessoa com base nas características gerais de sua produção literária e no contexto histórico.

Agradecimentos à professora Rosemary Gonçalo.

1.      Tripé pessoano:
conhecimento (busca pelo);
despersonalização na forma de heteronímia e fingimento (justificados pela busca do conhecimento e da plenitude cósmica, inalcançáveis quando o indivíduo se prende a um único ponto de vista);
sensacionismo.

2.      Principais heterônimos:
Alberto Caeiro (1889-1915);
Ricardo Reis (1887-?);
Álvaro de Campos (1890-?);
Bernardo Soares (?-?).

3.      Escola literária (estilo de época):
Modernismo.  (Fernando Pessoa fez parte da geração da revista Orpheu, de 1915.)

Em Portugal, o Modernismo trilhou, num momento inicial, as pegadas das chamadas estéticas finisseculares (especialmente do Simbolismo e do Decadentismo [...]), apropriando-se de suas propostas iconoclastas. De certo modo, pode-se dizer que as estéticas de fim de século representaram um primeiro passo para o surgimento das próprias Vanguardas Europeias, em si mesmas tão definidoras do movimento modernista (ALVES; SANTANA, 2014, p. 2).

4.      Contexto histórico global:
segunda ou terceira (?) revolução industrial;
Primeira Guerra Mundial;
Revolução Russa, de 1917;
totalitarismos: nazismo, fascismo, salazarismo e franquismo.



5.      Contexto histórico português:
Ultimatum Ultramarino;
intensificação da colonização dos territórios africanos;
início do movimento republicano (1908);
conflito entre monarquistas e republicanos;
implantação da República (1910);
ascensão e chegada ao poder de Antônio Salazar.



6. Fernando Pessoa e o conhecimento

É indispensável a leitura do estudo de abertura da Obra poética, publicada pela Nova Aguilar. Nesse estudo, menciona-se a questão do conhecimento, que permeia e condiciona toda a poesia pessoana. E uma das coisas que mais chamam a atenção é a importância de Kant e sua revolução epistemológica “heliocêntrica”, importância que se resume, se não me falha a memória, aos sentidos e ao homem. Kant era capaz de enxergar dialeticamente os acertos e os erros dos racionalistas e dos empiristas.

7. A obra

7.1 Fernando Pessoa ele mesmo (Fernando Pessoa ortônimo) (1888-1935)
Obra literária:
Mensagem;
Poesias;
Quadras ao gosto popular;
Cancioneiro.
Obra não-literária:
Obras em prosa.
Palavras-chave: No caso de Mensagem: pátria; sebastianismo; lirismo épico; heráldica. No caso de Poesias, Quadras ao gosto popular e Cancioneiro: melancolia.  
7.2 Alberto Caeiro (1889-1915)  (“Pensar é estar doente dos olhos.”)  (“Pensar em Deus é desobedecer a Deus,/ Porque Deus quis que o não conhecêssemos,/ Por isso se nos não mostrou...” (O Guardador de Rebanhos, VI.))
Obra literária:
O Guardador de Rebanhos;
O Pastor amoroso;
Poemas inconjuntos.
Palavras-chave: campo; bucolismo; vida ingênua e simples; mundo real-sensível; valorização dos sentidos (principalmente a visão).
Informações:
Teve apenas instrução primária.
Fernando Pessoa escrevia em seu nome “por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular o que iria escrever”.
É curioso que Caeiro valorize tanto o sentido da visão, pouco prezado pela cultura judaico-cristã, já que ela dá mais valor à audição e ao ato de ouvir a voz de Deus. Talvez a explicação para isso seja o fato de o verbo to see (ver) significar entender em certas frases, assim como o verbo enxergar. Digo isso porque não considero só o fato de a busca pelo conhecimento permear a poesia pessoana, mas também que Fernando Pessoa recebeu uma educação formal em inglês, fora de Portugal.  Por isso não é difícil entender que o poeta tenha criado Alberto Caeiro e dado a ele essa visão de mundo.

7.3 Ricardo Reis (1887-?) (“Só os deuses socorrem/ Com seu exemplo aqueles/ Que nada mais pretendem/ Que ir no rio das coisas.”)
Obra literária:
Palavras-chave: paganismo; tranquilidade horaciana; epicurismo; carpe diem.
Informações:
Foi discípulo de Alberto Caeiro.  Formou-se em Medicina.  Exilou-se no Brasil por, como monarquista, não aceitar a República.
Fernando Pessoa escrevia em seu nome “depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza[va] numa ode”.

7.4 Álvaro de Campos (1890-?)  (“Tenho febre e escrevo.”)
Obra literária:
Palavras-chave: futurismo; velocidade; máquina; sensacionismo; agressividade; modernidade; pessimismo; descrença; angústia; lucidez.
Informações:
Também foi discípulo de Alberto Caeiro.  Era engenheiro naval formado na Escócia.
Fernando Pessoa escrevia em seu nome quando sentia “um súbito impulso para escrever” e não sabia o quê.

7.5 Bernardo Soares
Obra: O livro do desassossego.
Palavras-chave:
Informações:

Exercícios:

Vamos ler alguns poemas de Fernando pessoa? Sugiro que você leia os poemas escolhidos e procure neles as características resumidas nas palavras-chave dos esquemas resumitivos acima. Boas leituras!



LIBERDADE

(Falta uma citação de Sêneca)

AI QUE prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

(Fernando Pessoa. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 188-9.)



POSSIBILIDADES DE INTERPRETAÇÃO

Minhas interpretações são as seguintes: Os que tinham liberdade para estudar eram os que tinham tempo livre, o ócio. Sêneca viveu num tempo em que só os cidadãos, que eram poucos, tinham tempo livre para os estudos; afinal, só eles eram livres, ao passo que os escravizados tinham de fazer o trabalho braçal. Infelizmente, o lugar de ócio (a escola) ainda é um privilégio. Minha avó paterna, por exemplo, não pôde ir à escola: tinha de trabalhar na roça. Ela falava com muito carinho do pai e da infância dela, embora não tivesse aprendido a ler. A alfabetização não era necessária ao trabalho realizado por uma pessoa nascida em 1918. Acho que muitos pais de alunos meus tiveram uma realidade idêntica à dela. Não vejo emprenho por parte de muitos alunos, nem interesse, nem gosto, nem senso de obrigação. É preciso que o aluno tenha consciência como juiz. Ele precisa criar autodisciplina e se autoavaliar. Até onde sei (ou até onde penso saber), a consciência como juiz é um dos ensinamentos de Sêneca, filósofo estoico. (O estoicismo, em uma de suas fases, valoriza o sacerdÓCIO e, portanto, o dever; por isso é o oposto do epicurismo, que busca o prazer.) Outra interpretação é a seguinte: o estudo e a literatura não são condenados nem inferiorizados pelo eu poético de Fernando Pessoa: eles seriam apenas símbolos que representariam o pedantismo, a desonestidade intelectual e a hipocrisia dos falsos cumpridores dos deveres, características de pessoas autoritárias como Salazar, o ministro que supostamente entende o que um dos versos menciona: as finanças. Hoje estamos vendo a ascensão do intelectual orgânico (o formador de opinião) que, só por ter diploma, é seguido e respeitado pelos leigos. (Hoje existe youtuber que faz isso sem diploma.) Esse é o caso de Mírian Leitão e Alexandre Garcia. Quanto aos versos em que é mencionado D. Sebastião, gosto de fazer um paralelo com Dilma: até hoje espero o retorno dela. Também poderíamos fazer uma interpretação superficial: o eu poético estaria seguindo a lógica do carpe diem; portanto, revelaria um certo hedonismo, como se fosse escravizado pelo próprio id.



PASSA UMA BORBOLETA por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

(Alberto Caeiro. O guardador de rebanhos. In: Fernando Pessoa. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 224.)

MAR PORTUGUÊS

Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosse nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

(Fernando Pessoa. Mensagem. In: ___. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 82.)

ONTEM À TARDE um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas)
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

(Alberto Caeiro. O guardador de rebanhos: XXXII. In: Fernando Pessoa. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986, pp. 220-1.)

ONTEM O PREGADOR de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam injustiça do mundo.
Mil passos que desse só para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais
Para qual fui injusto —  eu, que as vou comer a ambas?

(Alberto Caeiro. O guardador de rebanhos: XXXII. In: Fernando Pessoa. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986, p. 233.)

E HÁ POETAS que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.

(Alberto Caeiro. O guardador de rebanhos: XXXVI. In: Fernando Pessoa. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986, pp. 222.)

Referências bibliográficas:

ALVES, Ida; SANTANA, Rafael.  Aula 15: Almas indisciplinadas.  In: ______; BRAZ, Paulo; ANCHIETA, Marleide; CATTAPAN, Julio; CRUZ, Eduardo da; ERTHAL, Aline Duque; HELENA, Beatriz; MACHADO, Rodrigo; MENEZES, Raquel; VASCONCELOS, Viviane.  Literatura Portuguesa II.  Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2014.

______; BRAZ, Paulo.  Aula 18: Em torno de mim o mundo.  In:______.  Literatura Portuguesa II.  Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2014.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da Filosofia. Trad. Leonardo Pinto Silva. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

INFANTE, Ulisses. Curso de Literatura de Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2001.

OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de; REIS, Benedicta Aparecida Costa dos.  Minimanual Compacto de Literatura Portuguesa: teoria e prática. 1. ed. São Paulo: Rideel, 2003.

PESSOA, Fernando. Obra Poética. 4ª reimpressão da 9ª edição. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

______. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986.

WILTSHIRE, Maria Lúcia.  Aula 12: Mensagem da Terra ao Mar; Aula 13: Mensagem: Do mar ao Encoberto.  In:______; ERTHAL, Aline Duque; FERREIRA, Alba Valério Cordeiro; FILHO, Aderaldo de Sousa; SANTOS, Jane Rodrigues dos. Literatura Portuguesa I.  Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2013.

       
     

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

BARROCO (SEISCENTISMO OU ROCOCÓ) EM PORTUGAL E NO BRASIL

       PLANO DE AULA DE LITERATURA

Colégio ou escola:
Turma: Qualquer uma do 1º ano do ensino médio.
Professor: Márcio Alessandro de Oliveira.
Data:  /  /  .
Duração da aula: Uma hora e quarenta minutos.
Recursos: Para a exposição da matéria de que tratará a aula: lousa e giz.  (Na falta destes, quadro branco e marcador.)  Para a atividade em sala: fotocópias para a leitura de poemas adicionados a este plano.  Serão necessários dois recursos: projetor, para exibição de pinturas, esculturas, o texto que pode ser levado ao quadro, caso o professor queira exibi-lo na forma de slides, e rádio, para a reprodução de música barroca.
Tema e título da aula: Barroco (seiscentismo ou rococó) em Portugal e no Brasil.
Unidade didática: Barroco.
Atividades em sala: Leitura dos poemas selecionados e adicionados a este documento e resolução de questões (das quais a segunda é passível de anulação).
Atividades para o lar: Atividades ou questões do livro didático e leitura do texto A retórica falada usada como cabresto.
Pré-requisitos: Conhecimentos sobre: índices, ícones, símbolos, linguagens não verbais, língua, conceitos de literatura, literariedade, sistema simbólico, sistema literário, estilo (escola) de época, diferenças entre prosa e poesia, Renascimento e Classicismo.
Objetivo geral: Expor, em linhas gerais, o Barroco como escola e seu contexto histórico, para que os sentidos dos textos sejam construídos com os subsídios apresentados em forma de datas e fatos históricos que condicionam a arte.  (Crítica ao objetivo: Na aula de Literatura, deveria o texto literário ser o centro de gravidade da aula, e por isso a próxima deve se concentrar nos escritos selecionados.)
Objetivos específicos:
: apontar o Maneirismo e conceituar o Barroco de acordo com a possível significado original do nome;
: enumerar artes barrocas e alguns nomes importantes a elas vinculados;
: enunciar os marcos inicial e final nos dois países (Portugal e Brasil);
: apontar fatos históricos que podem ter condicionado as manifestações literárias barrocas em ambos os países;
: denominar algumas das características da literatura barroca, como a influência de Luís de Gôngora y Argote;
: mencionar autores, biografias, obras e reação do público de suas épocas.  (Não é só o contexto histórico que condiciona a literatura: para Todorov, a vida do autor também faz isso.)   
Conteúdo: Toda a matéria do texto que será levado à lousa (ou à tela do projetor).
Desenvolvimento: O professor inicia a aula com os cumprimentos de etiqueta elementar, seguidos da revisão da matéria anterior, da correção dos exercícios e da verificação do cumprimento dos pré-requisitos necessários à compreensão da aula de que trata este documento.  Terminadas essas etapas, começa a copiar no quadro o texto que contém a matéria tentando alternar a atenção (caso não use o projetor): num momento olha para o quadro, em outro, para a turma.  Tenta dar, de viva voz, as explicações intercaladas entre parênteses (que funcionam mais ou menos como rubricas de um script) com o texto que será exposto na lousa.  No fim da aula, o professor distribui folhas de exercícios, indica atividades do livro didático adotado pela escola e expõe os requisitos da próxima aula, cujo tema é o Arcadismo.
Referências bibliográficas:
CÂNDIDO, Antônio.  Literatura e Sociedade. 9ª edição, revista pelo autor.  Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
CARVALHO, Luiz Fernando Medeiros; COUBE, Fabio Marchon.  Aula 1 - As muitas vozes da persona satírica na poesia atribuída a Gregório de Matos.  In.: Literatura Brasileira II.  Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2014.
COTRIM, Gilberto.  História Global: Brasil e Geral (vol. único).  8ª edição.  São Paulo: Saraiva, 2005.  
FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Mato.  Literatura Brasileira.  17ª edição, São Paulo: Editora Ática, 2003.
INFANTE, Ulisses.  Curso de Literatura de Língua Portuguesa.  1ª edição, São Paulo: Scipione, 2001.
LOIVOS, Anabelle; PASCHE, Marcos; PIETRANI, Anélia. Aula 1 – Do Barroco e sua permanência no tempo que trota a toda ligeireza.  In.: Literatura Brasileira V: Tradição e ruptura.  Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2015.
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de; REIS, Benedicta Aparecida Costa dos.  Minimanual Compacto de Literatura Portuguesa: teoria e prática.  1ª edição.  São Paulo: Rideel, 2003.
TUFANO, Douglas.  Estudos de Literatura Brasileira.  2ª edição.  São Paulo: Editora Moderna, 1978.
MATOS, Gregório.  Obras completas de Gregório de Matos.  Crônica do viver baiano seiscentista: VI Volume.  Coleção Os baianos.  Salvador, BA, Editora Janaína Ltda..
VERISSIMO, Erico.  Breve história da literatura brasileira.  3ª edição.  São Paulo: Globo, 1996.  Tradução: Maria da Glória Bordini.  (Título original: Brazilian literature an outline.)
(Texto para quadro.)

BARROCO (SEISCENTISMO OU ROCOCÓ) EM PORTUGAL E NO BRASIL (último período do Renascimento)

1.      Maneirismo: Para alguns, Maneirismo é a transição entre o Classicismo e o Barroco, cujo nome, que poderia ser associado ao mau gosto e ao exagero, significaria pérola de formato irregular.

2.       Artes barrocas além da literatura:
Pintura: Caravaggio, autor de Vocação de São Mateus.
            Música: Vivaldi (italiano) e Johann Sebastian Bach (alemão), autor de Toccata in D Minor.
            Escultura: Aleijadinho.

3.       Marcos iniciais e finais da literatura barroca:
Portugal:
Início: 1580, ano da morte de Camões.
Fim: 1756, ano da fundação da Arcádia Lusitana.

Brasil:
Início: Prosopopeia (1601), de Bento Teixeira (1561-1600).  (O texto é imitação barata de Os Lusíadas, e foi feito em homenagem a Jorge de Albuquerque Coelho, terceiro donatário da capitania de Pernambuco.)
Fim: 1768, ano da publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa (MG, 5/6/1729-MG, 4/7/1789).

            4.  Contexto histórico:
4.1. Portugal:
            Estados absolutistas;
            Contrarreforma: Companhia de Jesus e Concílio de Trento;
            desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1580);
            domínio espanhol sobre Portugal (1580-1640).

4.2.  Brasil:
capitanias hereditárias (até 1759);
governo geral (a partir de 1759).

5.      Características da literatura barroca:
influência de Luís de Gôngora y Argote (1561-1627);
         linguagem rebuscada: uso de jogos de palavras e de construção para a experiência sensorial: cultismo (gongorismo ou culteranismo);
            rebuscamento do conteúdo pela conciliação de opostos: conceptismo;
            teocentrismo X antropocentrismo;
            oposição à sobriedade e ao racionalismo do Renascimento;
            conteúdo religioso;
            sátira.

6.      Autores, coletâneas e academias:

Portugal:
Autores (poetas):
Francisco Rodrigues Lobo;
Antônio Barbosa Bacelar;
Francisco de Vasconcelos;
Jerônimo Baía;
Tomás Pinto Brandão;
Soror Violante do Céu (poetisa).

Coletâneas:
Fênix renascida (cinco volumes);
Postilhão de Apolo (dois volumes).

Academias (de Lisboa):
Academia dos Singulares;
Academia dos Generosos.

Brasil:
Autores e obras:

Antônio Vieira (padre) (Portugal,1608; Bahia, 1697).
Produções que se destacam: Sermão da Sexagésima e História do Futuro.
Características: parenética, sebastianismo, cultismo, conceptismo, escravidão, invasão holandesa e defesa dos judeus e cristãos-novos.
Gênero: sermão.

Gregório de Matos, o Boca de Brasa ou Boca do Inferno (Salvador, 1633; Recife, 1696).
Características: sátira, religiosidade, cultismo e conceptismo.
Gênero: poesia satírica.


                                QUESTÕES DE VESTIBULAR* E ENEM

       Aluno(a):____________________________________________________________
       Turma:_____________

1.       (Centec-BA) Não é característica do Barroco a:
a)      preferência pelos aspectos científicos da vida.
b)      tentativa de reunir, num todo, realidades contraditórias.
c)      angústia diante da transitoriedade da vida.
d)     preferência pelos aspectos cruéis, dolorosos e sangrentos do mundo, numa tentativa de mostrar ao homem a sua miséria.
e)      intenção de exprimir intensamente o sentido da existência, expressa no abuso da hipérbole.

2.      (FCMSC-SP) A preocupação com a brevidade da vida induz o poeta barroco a assumir uma atitude que:
a)      descrê da misericórdia divina e contesta os valores da religião.
b)      desiste de lutar contra o tempo, menosprezando a mocidade e a beleza.
c)      se deixa subjugar pelo desânimo e pela apatia dos céticos.  
d)     se revolta contra os insondáveis designíos de Deus.
e)      quer gozar ao máximo seus dias, enquanto a mocidade dure.

3.      (Positivo-PR) O estilo rebuscado que retrata os dilemas entre os apelos de ordem espiritual e os atrativos de ordem material, mais o exagero no emprego dos recursos estilísticos, são características da escola:
a)      barroca
b)      arcádica
c)      romântica
d)     realista
e)      modernista




Questão 111 do Enem 2014 (extraída do sítio Conversa de Português)

Quando Deus redimiu da tirania
Da mão do Faraó endurecido
O Povo Hebreu amado, e esclarecido,
Páscoa ficou da redenção o dia.

Páscoa de flores, dia de alegria
Àquele povo foi tão afligido
O dia, em que por Deus foi redimido;
Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.

Pois mandado pela Alta Majestade
Nos remiu de tão triste cativeiro,
Nos livrou de tão vil calamidade.

Quem pode ser senão um verdadeiro
Deus, que veio estirpar desta cidade
o Faraó do povo brasileiro.

(DAMASCENO,  D. Melhores  poemas: Gregório de  Matos. São Paulo: 2006.) 

Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de  Matos apresenta temática expressa por
(A) visão cética sobre as relações sociais.
(B) preocupação com a identidade brasileira.
(C) crítica velada à forma de governo vigente.
(D) reflexão sobre dogmas do Cristianismo.
(E) questionamento das práticas pagãs na Bahia.

(*) As três primeiras questões foram extraídas do Minimanual Compacto de Literatura Portuguesa: teoria e prática, de Ana Tereza Pinto de Oliveira e Benedicta Aparecida Costa dos Reis. 1ª edição.  São Paulo: Rideel, 2003.

(Gabarito: a; e; a; c.)



POEMAS DE GREGÓRIO DE MATOS

QUERIA O POETA DIVERTIR SEUS AMOROSOS INCÊNDIOS
COM UMA MOÇA ALI ASSISTENTE, E PEDINDO-LHE ESTA
DINHEIRO ANTECIPADAMENTE, ELE LHE RESPONDEU
COM ESTAS



DÉCIMAS

1
                     Eu perco, Nise, o sossego,
                     E não posso isto entender,
                     Pois vos queixais de não ver,
                     E eu sou triste, o que ando cego:
                     Que heis de ver? Se do pespêgo,
                     Fugis com ligeiro passo?
                     Não corrais, um breve espaço:
                     parai: não vos ausenteis,
                     deitai-vos, que vós vereis,
                     mais vereis, o que eu vos faço.

2
                     Eu sou vosso companheiro
                     nestas cegueiras ímpias,
                     pois há mais de trinta dias,
                         que não posso ver dinheiro:
                     eu não sou home embusteiro,
                     hei de vos satisfazer,
                     e se quereis corriger
                     a vista sem mais antolhos,
                     esfregai mui bem os olhos
                     e esfregada haveis de ver.




3
                      Não me trazeis vós tão farto
                      que vos deva eu um vintém,
                      e em Parnamerim ninguém
                      paga à puta antes do parto:
                      vós não me entrais no meu quarto,
                      nem eu os quartos vos bato,
                      e não sou tão insensato,
                      que ainda que faminto ando,
                      vos vá o pato pagando,
                      se sei que outro coma o pato.

4
                     Desta sorte, Nise ingrata,
                     de querer de antemão ver,
                     temo, que sempre heis de ter
                     na vista essa catarata:
                     não vereis ouro, nem prata,
                     e pois vos desassossega,
                     o jimbo, que se vos nega,
                     nunca, Nise, o heis de ver,
                     porque do muito querer,
                     de faminta estais tão cega.






Fonte: Gregório de Matos.  Obras completas de Gregório de Matos.  Crônica do viver baiano seiscentista: VI Volume.  Coleção Os baianos.  Salvador, BA, Editora Janaína Ltda..  Atualizada a grafia de acordo com as normas vigentes em 2016.


Descreve o que era realmente naquele tempo a cidade da Bahia de mais enredada por menos confusa

            A cada canto um grande conselheiro,
            Que nos quer governar a cabana, e vinha,
            Não sabem governar sua cozinha,
            E podem governar o mundo inteiro.

            Em cada porta um bem frequentado olheiro,
            Que a vida do vizinho, e da vizinha
            Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
            Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

            Muitos mulatos desavergonhados,
            Trazidos os pés dos homens nobres,
            Postas nas palmas toda a picardia.

            Estupendas usuras nos mercados,
            Todos, os que não furtam, muito pobres,
            E eis aqui a cidade da Bahia.

           Fonte: MATOS, Gregório de.  Obra Poética.  2 ed.  Rio de Janeiro: Record, 1990, v.1, p. 33.  Apud: INFANTE, Ulisses.  Curso de Literatura de Língua Portuguesa.  1ª edição, São Paulo: Scipione, 2001, p. 165.


A RETÓRICA FALADA USADA COMO CABRESTO

“Há de tomar (...) uma só matéria, há de defini-la (...), há de dividi-la (...), há de prová-la (...), há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos (...), há de impugnar e refutar (...) os argumentos contrários.  (...)  e o que não é isto é falar de mais alto.”  (Padre Antônio Vieira, mencionado por Ulisses Infante em Curso de Literatura de Língua Portuguesa.)

Pastores evangélicos contam com um poderoso instrumento de persuasão e controle: a palavra falada, que é muito diferente da palavra escrita.  Esta não conta nem com as inflexões de voz, nem com os gritos, nem com os gestos corporais.  Essas linguagens não-verbais são poderosos instrumentos que auxiliam o discurso falado e, portanto, o ofício de dominar rebanhos de espíritos pobres, doentes, iletrados e pouco críticos que vão à igreja.
Como muitos dos pastores são iletrados, é natural que usem a oratória, e não a retórica escrita.  Contudo, mesmo se fossem mais cultos, não se atreveriam a depositar suas chances de ascensão e dominação apenas nos discursos redigidos: a plebe rude que manipulam não lê, e, para eles, isso é muito vantajoso, pois que podem recorrer à retumbância, ao impacto da entonação e do grito (que continuariam a ser as suas ferramentas preferidas mesmo se os manipulados fossem leitores; a prova disso é Hitler, que não dependeu do seu livro, Minha Luta, para dominar a Alemanha: dependeu da oratória hipnótica).  Independentemente do grau de letramento do pastor, para ele é indispensável a oratória inflamada.
Um exemplo: Se eu escrevo: “Conseguimos um crescimento de apenas 1%, enquanto os outros países conseguiram um de 30%”, há informação pura e simples: não comove (com exceção de casos de pessoas que dependam de um crescimento muito acima de 1% para evitar um ataque do coração, por exemplo) nem influencia a opinião do leitor de forma muito explícita.  Mas se eu falo: “Conseguimos um crescimento de apenas [aqui a voz fica baixa e fina; o rosto se contorce] 1%, enquanto os outros países conseguiram um de [aqui o falante aumenta o tom da voz sem deixar de erguer as sobrancelhas] 30.”  Essa técnica os pastores conhecem, e levaram-na ao extremo.  O “30” fica destacado, o ouvinte perde a capacidade de pensar na diferença entre porcentagens e números reais e se deixa levar pelo sentimento que cega.
Não é de surpreender que prefiram os sacerdotes protestantes a oratória à redação: herdaram dos judeus o hábito de valorizar a audição para “ouvir a voz de Deus”, ao passo que a visão, sentido que, segundo leio, era mais valorizado pelos gregos, ficou em segundo plano.  Mas é pela audição que vem a cegueira.
Conclamo que todos os professores de língua se rebelem contra a manipulação dos pastores.  É fundamental que esclareçamos os espíritos para que não sejam possuídos pelas ideias danosas das igrejas.  Para isso, é fundamental uma educação linguística de qualidade, uma educação que contemple a prática de bem falar e a de bem escrever aliadas à dialética e à dialógica: só elas podem evitar que inocentes caiam nas armadilhas de quem só convence por falar mais alto.

(Márcio Alessandro de Oliveira. Duque de Caxias, 30/5/2015. Publicado originalmente no Facebook.)